2 de maio de 2009

É preciso ser normal?


Uma amiga me disse que não gostaria de trabalhar com afásicos porque é triste demais.

Afásico é uma pessoa que tem afasia. Explicando (resumidamente) afasia é a perda e/ou alteração da linguagem, produzida por lesões cerebrais como derrames, AVC, tumores e acidentes. A afasia se manifesta diferentemente de pessoa pra pessoa, de acordo com o tipo e local da lesão. Algumas pessoas têm dificuldade de articular bem as palavras, outras perdem a capacidade de traduzir conceitos em palavras ou têm dificuldade de reconhecimento (a pessoa não consegue entender direito o que os outros falam, porque não reconhecem as palavras). Algumas adquirem problemas pragmáticos (tornam-se agressivas ou falam coisas inadequadas e palavrões/ofensas o tempo todo). Outras têm problema de percepção da sua própria fala (a pessoa acha que está conversando normalmente mas, no fundo, está produzindo um amontoado de sons ou palavras que não fazem sentido algum). E há, ainda, aquelas que perdem totalmente a linguagem. Todas elas apresentam dificuldades tanto na fala quanto na escrita, porque a afasia faz com que a pessoa perca a capacidade de traduzir o comando cerebral (as idéias, palavras e sons dentro do seu cerébro) em linguagem, seja ela escrita ou oral.

Há algum tempo eu venho participando das sessões do CCA. O CCA é coordenado pelas professoras de Neurolínguística do IEL e tem como objetivo ser um lugar onde os afásicos sejam estimulados a voltar a falar e criar outras formas de comunicação. A atividade da última sessão do CCA era relacionada a esse último objetivo: brincar de mímicas.

Os afásicos foram dividos em 2 grupos, uma pessoa de cada grupo sorteava um papel com a mímica a ser feita e o outro grupo tinha que adivinhar. Todos participaram, inclusive aqueles que tinham afasias muito severas, como um senhor que não fala uma palavra sequer. Muitos deles também tem problemas físicos (tem algum lado do corpo paralisado, andam de muleta ou cadeira de roda), o que traz limitações e dificulta as mímicas.

Todos se saíram muito bem. As mímicas eram muito criativas, significativas e inteligentes (eu não teria pensado na maioria delas). E eles são ótimos adivinhadores de mímicas, não erraram uma sequer! É como se, ao perder parte da linguagem, eles desenvolvessem melhor outros meios de comunicação, expressão e percepção. Eles adoraram a brincadeira, se divertiram e todos nós rimos muito.


Onde eu quero chegar com tudo isso?


Nós todos temos a ilusão (muito inocente) de que é preciso ser normal para ser feliz. Temos a crença prepotente de que somos muitos mais felizes do que as pessoas que têm algum tipo de deficiência ou limitação. Afinal, como alguém pode ser feliz sem uma perna, sem poder falar, ver ou ouvir?

No entanto, conheço muitas pessoas "normais", e que pensam beirar a perfeição, que não sabem ser feliz, nem se divertir. Precisam de rios de dinheiro ou de programas extraordinário para dar um sorriso, enquanto os não-normais se divertiram e riram muito com uma simples brincadeira de mímica.

Ser feliz não é uma condição, é uma opção. Muitos daqueles afásicos poderiam ter morrido por causa do AVC ou do acidente. Ao saírem vivos, se depararam com dois caminhos: 1) tornarem-se vítimas da própria condição e passarem o resto da vida cercados de tristeza, pessimismo, lamentações e infelicidade ou 2) serem felizes.

Os atletas medalístas das Pára-Olímpiadas sentiram uma felicidade que muitos de nós jamais saberá como é. O mesmo aconteceu com muitos artistas que driblaram suas limitações e se tornaram consagrados. A história está cheia de exemplos de pessoas com deficiência que alcançaram o reconhecimento e a felicidade.

Não ter problemas (seja lá que problema for) não faz ninguém mais feliz. Nem menos feliz.


Aqueles afásicos são mais felizes que muitos de nós.


...

Saiba mais sobre afasia:


Siglas:
CCA - Centro de Convivência de Afásicos
IEL - Instituto de Estudos da Linguagem


3 comentários:

Lígia disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Lígia disse...

Eu (que sou essa "uma amiga"... risos) disse que a condição do afásico me parece uma coisa triste, e que, por isso, eu não gostaria de estudar esse tema.
Isso é bastante diferente de dizer que eles são tristes, viu, dona Aline? Eu nunca tive contato com nenhum afásico pra dizer que eles estão privados de felicidade.
Concordo com o que você disse sobre a relação entre normalidade e felicidade. Talvez tanto a normalidade quanto a felicidade não passem de buscas por um ideal inatingível.
Eu continuo com a impressão de que a condição do afásico é algo triste (o que não os impede de ter momentos de felicidade), pois a linguagem já é um problema para todos nós, eu fico pensando, então, imagina para os afásicos. Muitas coisas talvez sejam ainda mais complicadas. Digo isso porque a linguagem nunca nos é suficiente: nossos pensamentos não cabe, em palavras, não podem ser nelas traduzidos. Além de não ser suficiente, a linguagem é lugar de equívoco: o tempo todo queremos dizer uma coisa e entendem ooooutra. (Por exemplo, olha o que aconteceu com o que eu te disse sobre a minha não identificação acadêmica com o estudo das afasias.) Nesse sentido acho também que a nossa condição é de certo modo triste...

Diegovj disse...

Faz a gente parar pra pensar em como muitas vezes reclamamos sem motivo algum.

Bjos.