
Retirado do livro "Dois Palitos", de Samir Mesquita.
São 50 microcontos, com até 50 letras, num livreto que vem dentro de uma caixinha de fósforos.
Veja mais micro-contos no site do autor http://www.samirmesquita.com.br/

1- As fôrmas dos sapatos aumentaram
Eu calço 34 e como se já não bastasse a pequena dificuldade em achar sapatos do meu número, descobri que os sapatos 34 simplesmente não me servem mais. Desde os 11 anos eu calço 34 e sempre comprei sapatos que ficavam certos no meu pé, mas todos os últimos sapatos que comprei ficaram meio grandes. É bem provável que a industria dos sapatos (industria sapateira? sapatista? calçadista? sei lá, enfim...) resolveu agradar as mulheres de pé grande e aumentaram a fôrma dos sapatos, ou seja, quem comprava sapato 40, agora pode comprar 38 e ser feliz! E eu? vou ter q comprar 33? 32? Eu adoro a Hello Kitty, mas ter q usar aqueles sapatinhos cheio de desenhinhos e purpurina, não vai dar...
Por falar em Hello Kitty, isso me leva a descoberta número 2.
2- Solteiros não arrumam a cama
As colchas da minha cama e da minha irmã estavam velhas e por isso decidi comprar umas novas. Eu andei em milhares de loja e não achava colchas para cama de solteiro e eu ainda precisava de duas iguais (uma pra mim e outra pra minha irmã). Só existem colchas de casal e infantil... ou seja, aos 12 as pessoas param de arrumar a cama e só voltam a fazer isso depois do casamento.. bom, sei lá, eu sempre arrumei a minha, até porque acho meio porquice deixar o edredom em cima da cama, aí vai um e deita, vai outro coloca o pé em cima e à noite você dorme naquilo. Eu estava quase aceitando o fato de que teria que comprar uma colcha da Hello Kitty ou da Moranguinho, quando achei duas colchas iguais, muito rosas. No final, a colcha da Hello Kitty seria mais discreta.
3- O nervoso te impede de sentir dor
Depois de passar apenas umas 5 horas me arrumando pra uma festa de formatura, fui colocar o vestido que usaria (um vestido que queria há muito tempo ...), quando, de repente, o vestido resolveu se auto-destruir em 30 segundos. O bordado começou a desmanchar e eu dei graças a Deus por ele resolver se suicidar em casa, pois se tivesse ido pra festa com ele, teria ficado pelada. É claro que, antes de dar graças a Deus, eu dei um piti. Surtei! Tive que ir com outra roupa e terminar de me arrumar correndo... O nervoso foi tanto que, só no dia seguinte, percebi que tinha queimado meu braço e meu rosto em dois lugares com o baby-liss e sequer tinha percebido. Tudo bem que, quando eu vou tirar sangue, fico nervosa, dou piti... e dói do mesmo jeito. Talvez o nervoso só impeça dores causadas por queimadura, vai saber...
4- Falta de memória te faz uma pessoa injusta
Eu ODEIO quando alguém mexe nas minhas coisas. ODEIO em dobro quando mexe em algo meu e não coloca no lugar de onde tirou. ODEIO ao cubo quando além de mexer sem pedir, não coloca no lugar de onde tirou e a coisa... some. Nos últimos dois meses, minha casa estava uma bagunça por causa da reforma e várias coisas minhas sumiram. Sempre que eu acusava alguém, falando que a pessoa tinha perdido aquilo que era meu, pronto... eu achava e percebia que eu mesma tinha guardado naquele lugar e tinha esquecido.
5- Lugares menores se sujam mais facilmente
A minha casa tinha uma cozinha enorme e eu fazia qualquer coisa (ou quase qualquer coisa... ou uma lista grande de coisas) só pra não ter que passar pano na cozinha. Depois da reforma, a cozinha ficou muito menor e, não sabemos porque, está sempre suja! A outra cozinha, que era enorme, vivia limpia. A cozinha nova é assim: olhou, sujou!
6- Reformas são mais efecientes para o emagrecimento do que academias
Ano passado, eu passei o ano todo indo 3 vezes por semana na academia para emagrecer 2 míseros quilos. O meu pai passou apenas 2 meses "vigiando" a reforma e emagreceu uns 10. Talvez haja alguma ligação entre os ponteiros da balança e os dígitos da conta corrente.
7- Dinheiro não compra as pessoas
Embora muita gente ache que dinheiro compra tudo, inclusive amigos, isso não é verdade. Nesses últimos meses aconteceram algumas coisas que me fizeram ver que nem mesmo muito dinheiro pode comprar amigos para uma pessoa chata, insuportável e arrogante. Infelizmente, não posso dar mais provas sobre o caso, pois a pessoa chata, insuportável e arrogante seria identificada.
8- Tem (des)gosto pra tudo
Se tem uma coisa que me faz odiar rodeios são os peões. Não os peões que montam nos touros e cavalos, mas aqueles peões nojento e melecas que ficam circulando pela festa, pagando de gostoso e tentando seduzir todas as mulheres do lugar. Quando um desses se aproxima de mim, eu tenho vontade de enfiar uma bomba bem no meio da cara dele. Pensava que todas mulheres, ou ao menos as mulheres que eu conhecia, também pensassem assim. Ledo engano. Algumas discordam plenamente e ainda apelidam essa pseudo-espécie de homens de "Cat". Na minha opinião, eles estão mais pra rato, lesma ou qualquer bicho melequente e asqueiroso... argh! Também não posso dar maiores informações sobre o caso para preservar a identidade da pessoa em questão. A coitada já paga mico suficiente tirando foto "cos peão de rodeio".
9- Na Unicamp nunca tem aula na primeira semana do semestre (ou, ao menos, no IEL)
Nesses meus quase 6 anos de Unicamp, eu nunca tive aula na primeira semana. No máximo, tive uma apresentação de curso de 20 minutos. Esse é o lado negativo das universidades públicas: os professores são influentes e, no começo do semestre, estão sempre voltando de algum congresso, terminando algum relatório ... ou simplesmente fazendo de conta que estão fazendo algo importante e não podem dar aula.
Essa descoberta já é antiga, mas achei bom colocá-la aqui para avisar algum desavisado.
10- As músicas de balada sempre têm letras idiotas
Nós vivemos reclamando que axé e pagode não tem letra que preste, mas passamos horas e horas ouvindo música eletrônica "muito boa". Muito boa ... pra quem não sabe inglês. Boa parte delas tem uma estrofe de 5 linhas que se repete ao longo dos 5 minutos de música. Outras, tem letras tão pornográficas quanto as do É o tchan. E, por fim, tem aquelas com letras totalmente sem sentido. As músicas de balada sempre tem letras idiotas, mas continuo gostando delas mesmo assim.
I
No dia 22 de dezembro de 1988 Chico Mendes foi assassinado na soleira da porta dos fundos de sua casa, em Xapuri. Uma casa de madeira, com dois quartos pequenos separados por um tabique, e uma saleta onde mal cabem duas cadeiras, uma mesinha e uma estante. Poderia ser a casa de um homem só, mas nela moravam também a mulher e os dois filhos do líder dos seringueiros.
Uma modesta biblioteca me chamou atenção quando visitei a casa desse homem covardemente executado. No canto da estante havia livros de ficção, história, política, geografia e alguns volumes de uma enciclopédia. Enquanto lia o título de cada livro, imaginei o leitor sentado diante de uma mesinha ao lado de sua cama; imaginei também o escritor anotando idéias, impressões e aforismos sobre a vida na floresta, a vida dos trabalhadores que dependem do meio ambiente para sobreviver. Ou melhor, para viver com dignidade.
A estante com livros tem um forte significado simbólico: a morada de Chico Mendes e sua família é também uma casa de leitura. Às vezes, o assassinato de um ser humano é o triunfo da violência covarde contra a inteligência e o conhecimento.
II
Tão simbólica quanto real é a Casa de Leitura Chico Mendes, situada na zona leste de Rio Branco, num bairro que também tem o nome do líder assassinado. A Casa de Leitura foi criada em 2005 por Gregório Filho, então diretor da Fundação Elias Mansour. É um projeto educacional e cultural simples e despretensioso. Por isso mesmo impressiona. E, por que não dizer, comove. Impressiona e comove por sua ampla dimensão social, e também porque as pessoas envolvidas nesse projeto são educadores apaixonados pela profissão a que se dedicam. Voluntários da própria comunidade do bairro Chico Mendes participam das atividades da Casa. Mais de cem crianças e jovens de um subúrbio pobre são estimulados a ler, ouvir e contar histórias. Cantam, brincam, lêem e encenam jogos e breves peças teatrais num espaço que não é uma creche, e sim um lugar de descoberta do mundo, viagem do imaginário.
Aprender a ler bons livros é uma forma de libertar-se. Dificultar ou barrar o acesso das artes e da cultura livresca a pessoas humildes é, no mínimo, uma miopia política e um preconceito de classe. Talvez seja uma das maiores indignidades deste país, em que certos investidores, políticos e banqueiros saqueiam a nação de um modo vil e quase sempre impune.
Há outras Casas de Leitura na capital e no interior do Acre, e a idéia da Fundação Elias Mansour é expandir e multiplicar essa experiência em vários municípios acreanos. Um trabalho semelhante é feito pela Expedição Vaga-Lume, uma ONG que atua em muitas cidades e comunidades da Amazônia. Seria interessante estabelecer um diálogo entre essas duas experiências, pois ambas são vitoriosas e servem de exemplo transformador para o Brasil.
III
Desconfio de projetos megalômanos e de discursos pomposos. A Amazônia - plural, complexa, diversa - exige estudos minuciosos, olhar de lupa, conhecimento científico e cultural apurados. Isso está sendo feito aos poucos e sem muito alarde no Acre. A Usina de Artes e a Biblioteca da Floresta Marina Silva são mais dois belos exemplos de intervenção cultural em Rio Branco. A Biblioteca é um projeto de arquitetura ousado que abriga atividades culturais relevantes, exposições permanentes sobre os povos indígenas e descobertas arqueológicas do Acre. Além disso, promove debates sobre questões da Amazônia. É um laboratório vivo e dinâmico que não deixa nada a desejar a uma boa biblioteca de um país civilizado.
O Acre era um Estado esquecido e marginalizado. O fato de hoje situar-se no centro da transformação social da Amazônia não é um milagre, e sim fruto de um processo que exigiu trabalho árduo, luta e participação popular. E ainda a determinação de um grupo político coeso, sonhador e com visão transformadora, movido pela crença na utopia, esta palavra tão fora de moda.
Chico Mendes e outros brasileiros foram assassinados ao longo desse processo. Oxalá o atual governo e políticos progressistas do Acre não se acomodem, nem façam alianças duvidosas com o único objetivo de manter-se no poder. O trabalho de dez anos pode dissipar-se em dez semanas. Sem contar que, no Brasil, a mediocridade e as forças conservadoras têm garras poderosas. No fundo, a luta contra a barbárie deve ser constante, sem trégua e sem descanso. Na sua aparente simplicidade, as Casas de Leitura são marcos pontuais de civilização e pesam muito mais do que uma tonelada de retórica ou propaganda, que, essa sim, não passa de promessa vazia.
Fonte: http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI3019944-EI6619,00.html