10 de fevereiro de 2009

Conheça - Patrícia Melo

Patrícia Melo é escritora, roteirista e dramaturga. Na literatura, escreve obras policiais e é conhecida por se dedicar a análise da mente de criminosos. Ela tem uma escrita dilacerante. Seus livros chocam, te machucam por dentro, porque você sabe que embora seja tudo ficção, há algumas esquinas uma história parecida, mas real, pode estar acontecendo.

Li dois de seus livros, Acqua Toffana e O Matador. No primeiro, Patrícia conta a história de dois estupradores e assassinos: uma história é contada sob o ponto de vista da vítima e a outra, do estuprador. Em O Matador, Patrícia conta a história Máiquel e nos mostra como um acontecimento banal e não-planejado pode transformar uma pessoa comum num assassino. O Matador foi transformado em filme, sob o título O Homem do Ano.

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Patrícia Melo nasceu em Assis – SP, em 1963 e é casada com o maestro John Neschling. Além de diversos livros, também escreveu dois trabalhos para a televisão (a minissérie Colonia Cecilia em 1989 e A Banqueira do Povo, em 1993), dois roteiros para o cinema (O Xangô de Baker Street e Bufo & Spallanzani, ambos em 2001) e algumas peças de teatro. Em 1999, a Time Magazine a incluiu entre os 50 “Latin American Leaders for the New Milennium.

PUBLICAÇÕES
Acqua Toffana (1994)
O Matador (1995)
Elogio da Mentira (1998)
Inferno (2000) – vencedor do Prêmio Jabuti
Valsa Negra (2003)
Mundo Perdido (2006)
Jonas, o Copromanta (2008)

"Se você quiser me matar, Máiquel, vai ter que ser pelas costas, ele disse.
Suel ficou de costas para mim e saiu gingando (...).
Dei o primeiro tiro (...) Dei outro tiro sem mirar e acertei a cabeça de Suel. Foi assim, as coisas aconteceram desse jeito. Ele foi a primeira pessoa que matei. Até isso acontecer, eu era apenas um garoto que vendia carros usados e torcia para o São Paulo Futebol Clube."
(trecho de O Matador)


9 de fevereiro de 2009

A pobreza é revoltante


Eu tinha decidido que a volta do blog (depois dessa pausa de quase um mês) seria com a apresentação de mais um escritor brasileiro. Mas aí, acabei mudando de idéia. Na verdade, não mudei muito. Eu ia escrever sobre a Patricia Melo e os livros dela falam sobre o tema desse post.


Esses dias eu percebi uma coisa que espanta a mim mesma. Eu percebi que, no fundo, eu tenho dó de criminosos. Digamos que eu me compadeça do destino desgraçado do qual, na maioria das vezes, eles não conseguem fugir.

Não, não tenho dó de serial killer, estuprador, torturador, gente que bota fogo no vizinho, joga a filha pela janela, mata a namorada, enfim, esses assassinos que matam por prazer (ou por loucura, sabe-se lá), psicopatas que se multiplicam a cada dia no Brasil. Também não tenho dó de filhinho de papai que opta pela criminalidade para fazer bonito para os amigos. Estou falando de gente que nasce na miséria e vira bandido.

Uma reportagem na TV me deixou chocada: um menino de 11 anos era preso por roubo, pela segunda vez. Era usuário de drogas pesadas e morava num barraco de 2 cômodos em uma favela. Ele ainda é uma criança, mas já é um criminoso. Já é odiado por muita gente, que acha que seu lugar é na cadeia. Eu não acho. Eu tenho dó. A sua vida ainda está no começo, mas seu futuro já foi determinado.

Eu acho que o que acontece é que eu me identifico mais com ele do que com os ricos que ficam por aí choramingando quando seu rolex que custa sei lá quanto é roubado. A criminalidade do país é, claro, uma coisa terrível, mas a desigualdade social é, para mim, mais pertubadora.

Uma outra reportagem, que vi ontem, chama atenção para o assunto. Na cidade de São Paulo, o luxo e a miséria vivem lado a lado: de um lado a favela de Paraisópolis, uma das maiores da cidade, do outro lado o bairro Morumbi, um dos bairros mais ricos de São Paulo. De um lado da rua, barracos que não valem R$10 mil reais. Do outro lado, casas de R$5 milhões e apartamentos com uma piscina por andar.

Quando um dos moradores do Morumbi é assaltado, com certeza, se diz injustiçado. Injustiça maior é a vida que levam as 80 mil pessoas que moram ao lado. Não estou dizendo que ir lá roubar aquilo que a pessoa comprou com o dinheiro do seu trabalho é correto. Mas ver a pobreza na rua debaixo e fechar os olhos também é cometer um ato de injustiça.

É fácil julgar a pessoas quando se tem tudo na vida, escola boa, carro do ano, roupa nova toda semana, viagem pro exterior, festa, lazer. Boa parte das pessoas não sabe o que é ser pobre, o que é passar fome, frio, não ter roupa para vestir, não poder ir para escola porque tem que ajudar os pais a sustentar os irmãos menores. Concordo que a pobreza não deve ser desculpa para uma vida cheia de crimes, nem todo pobre precisa ou tem que virar bandido.

Mas o que será que nós faríamos se estivéssemos do lado de lá da história? Ser pobre é ter uma vida repleta de fracassos e humilhações. Cheia de sonhos que nunca serão realizados. É ver as oportunidades passarem bem longe da sua porta. Se imagine morando numa barraco de madeira e vendo, do outro lado da rua, uma mansão com mais quartos que moradores. Deve doer. Deve dar ódio. A pobreza é revoltante. Ela é o alimento da criminalidade.


11 de janeiro de 2009

Eu postei muitos textos nos últimos meses, escrevi bastante, isso até me surpreendeu.

Mas se os últimos meses foram meses de escrita, os próximos serão de leitura. Eu ganhei 5 (bons) livros de Natal e estou devorando todos. Além disso, também tenho que ler 1 livro em francês e mais uns 6 livros sobre Neurolinguística, tema da monografia que escreverei neste ano.

Por isso, é bem provável que o blog fique meio abandonado, pois gastarei meu tempo livre lendo... mas, ainda esse mês, apresento mais um escritor brasileiro contemporâneo (e vivo!) para vocês.

Aquele abraço,
Aline

2 de janeiro de 2009

Acordo Ortográfico

Já faz um tempo que eu queria escrever um texto sobre o Acordo Ortográfico, que trará algumas mudanças para nossa língua. O acordo entra em vigor este mês e garante um período de adaptação de 3 anos, isto é, até 2012 tanto a ortografia antiga como a nova deverão ser aceitas como corretas em órgãos públicos, vestibulares, concursos e etc. Fazem parte do acordo os 8 países de expressão portuguesa: Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste.

O que pouca gente sabe é que o que motivou esse acordo foi, no fundo, questões políticas. Com ele, pretende-se unir, ao menos no papel, os 8 países onde se fala português para, quem sabe, dar mais força ao idioma. Soma-se a isso o fato de que a ortografia unificada fará do português um idioma oficial na UNESCO.

Além disso, ao contrário do que muita gente pensa e diz, o acordo não é de todo mal, nem é o primeiro a ser feito. O português já passou por muitas mudanças como essa. Assim como todo idioma, o português falado evolui, muda, está em constante processo de formação e transformação. Algumas palavras somem, algumas letras deixam de ser usadas, alguns acentos ficam perdidos por aí. Mas o mesmo não acontece com a escrita, que é estática, parada, regida por leis de verdade (iguais as leis de trânsito, por exemplo). Ninguém manda nas palavras que saem de nossa boca, mas o governo tem poder para dizer qual é a maneira certa de escrever.

A última grande mudança ortográfica do português aconteceu 1931 e, desde então, muita coisa mudou. Eu acredito que uma renovação ortográfica era realmente necessária. Eu mesma já não usava trema há muito tempo e minha pera nunca teve acento circunflexo. Meu voo também sempre voou sozinho por aí, livre, leve e solto, sem acento nenhum.

Mas algumas mudanças, confesso, me doem o coração. Não dá pra escrever ideia sem acento. Nem colmeia, geleia, plateia.

Também vai ser difícil usar hífen a partir de agora, pois para isso precisaremos decorar todas as regras, que são pelo menos 15. Mais difícil ainda vai ser ensinar a criançada a escrever esse monte de palavras grandes que surgirão com sumiço do hífen. Contraespionagem. Socioeconômico. Microssistema. Contrassenso. Microrradiografia.

O que também me dói é ver esse monte de SS e RR juntos. Ficou feio demais. Dá medo escrever.

Para perder o medo, vocês podem baixar no link abaixo um Guia da Nova Ortográfica. Quem não conseguir baixar, me deixa uma mensagem, que eu dou um jeito de enviar.

28 de dezembro de 2008

A fenda do biquíni

Poucas coisas no mundo são tão odiosas quanto comprar biquíni.

EU ODEIO COMPRAR BIQUÍNI!

Eu odeio porque eu odeio biquíni pequeno. Odeio estampas horrorosas. Odeio biquíni sem estampa. Odeio lacinhos do lado. Odeio porque eu uso cada parte do biquíni de um tamanho. Odeio porque a gente sempre fica gorda de biquíni. Odeio pagar uma fortuna numa peça de roupa de 30 cm.

Eu queria viver no começo de século, assim eu poderia ir à praia de roupa e não seria ridículo. Ou então, acho que eu queria ser homem pra poder ir à praia de bermudão sem parecer cafona ou tiazona.

Mas, por mais que odeie, todo ano é assim. O verão chega e se eu quiser usufruir do sol, piscina e mar, tenho que me aventurar nas lojas que vendem biquíni.

E se tem uma coisa pior que comprar biquíni, são as vendedoras que vendem biquíni. Elas são um SACO. Mal-humoradas ou desanimadas, não importa: odeio todas elas. Hoje, estava em uma loja repleta de biquínis, com biquíni até o teto. Pedi um biquíni preto. Não tinha. Pedi um biquíni franzido do lado. Não tinha. Pedi um biquíni com bojo. Não tinha. Não tinha &*%@# nenhuma! E aqueles 321.235.203 milhões de biquínis na minha frente, eram o quê, ilusão de ótica?!

Aliás, as más vendedoras estão se procriando pelo mundo. Estão em todas as lojas de todos os lugares. Eu imagino que passar o dia todo em pé, aguentando gente chata e metida, não deve ser muito agradável. Não deve ser muito legal ser vendedora, mas ou você procura outra coisa pra fazer da vida ou tenta ser a melhor vendedora que você pode ser. Porque, quanto melhor vendedora você for, mais vai vender, quanto mais você vende, mais você ganha... e dinheiro no bolso sempre dá uma melhorada na vida.

Lá estava eu, no shopping lotado, um calor infernal, odiando todas as vendedoras e todos os biquínis do mundo, quando entrei em uma dessas lojas grandes, de rede. No provador da loja, estava trabalhando uma moça deficiente (devia ter algum tipo de deficiência mental). Ela falava "bom dia" para todas as pessoas que entravam e falava "obrigado" para todas pessoas que saíam e devolviam as roupas no cabide. Ouvir "bom dia" e "obrigado" não é coisa fácil dentro de uma loja e essas palavras fizeram dela a melhor vendedora do dia.

Eu imagino que não deve ser nada fácil ser deficiente em um mundo como o nosso, onde só a perfeição é valorizada, onde ter o nariz meio grande ou um peito pequeno já é motivo para revolta, depressão e até mesmo suicídio. Quem tem algum tipo de deficiência, vive num mundo repleto de preconceito e exclusão. A sociedade o faz pensar que ele nasceu predestinado ao fracasso e a reclusão. Inserir-se igualmente na sociedade, é o sonho e, espero, o futuro de todo deficiente. Talvez, por isso, aquela moça trabalhava dando seu melhor.

27 de dezembro de 2008

Poesia 2




De vez em quando Deus me tira a poesia.

Olho pedra e vejo pedra mesmo.




Adélia Prado. Poesia Reunida, p.199

22 de dezembro de 2008

Conheça - Ana Miranda

Ana Miranda é tão boa historiadora, quanto escritora. E vice-e-versa. Suas obras são, em grande maioria, históricas e recheadas de acontecimentos reais que trazem ainda mais vida aos seus livros. Li dois de seus livros, Desmundo (que já virou filme) e Boca do Inferno, ambos retratam o país da época de 1500/1600.

Desmundo conta a história de jovens órfãs portuguesas que foram traduzidas para o Brasil, no início do período de colonização, com um objetivo nada agradável: casar-ser com os homens (sujos e truculentos) que aqui moravam e povoar a nova terra.

Boca do Inferno conta a história do poeta Gregório de Mattos e de Padre Antônio Vieira. Entre realidade e ficção, a escritora ainda conseguiu inserir uma história policial instigante, repleta de tirania e corrupção.

Os dois livros valem à pena serem lidos, especialmente por aqueles que gostam de saber mais sobre a História do nosso país.

Abaixo, vocês podem encontrar algumas informações sobre Ana Miranda, retiradas de sites.

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Ana Miranda nasceu em Fortaleza, Ceará, em 1951, e mudou-se para o Rio de Janeiro aos cinco anos de idade. Em 1959, foi para Brasília, onde o pai, engenheiro, trabalhava na construção da cidade. De volta para o Rio de Janeiro, deu continuidade aos seus estudos.

É uma escritora profissional: fez parte de várias antologias, faz artigos para jornais ou revistas; trabalha com roteiros para cinema. Colaboradora, desde 1998, com a revista Caros amigos, e, desde agosto de 2004, escreve crônicas no Correio Braziliense.

Foi escritora visitante na Universidade de Stanford em 1996, e fez palestras e leituras nas Universidades de Berkeley, Yale, Darthmouth, de Roma, dentre outras. Em 1999 e 2003, Ana Miranda representou o Brasil na União Latina, em Roma e em Paris.


PUBLICAÇÕES

- Anjos e Demônios (Poesia, 1979)
- Celebrações do Outro (Poesia, 1983)
- Boca do Inferno (Romance, 1989) - Foi publicado em diversos países, tais como França, Inglaterra, Itália, Estados Unidos, Argentina, Noruega, Espanha, Suécia, Dinamarca, Holanda, Alemanha. Vencedor do Prêmio Jabuti, em 1990.
- O Retrato do Rei (Romance, 1991)
- Sem pecado (Romance, 1993)
- A Última Quimera (Romance, 1993)
- Desmundo (Romance, 1996)
- Amrik (Romance, 1997
- Dias & Dias (Romance, 2002)
- Que seja em segredo (Poesia, 1998)
- Clarice (Novela, 1999) – Inspirada na vida de Clarice Lispector
- Noturnos (Contos, 1999)
- Cadernos de sonhos (contos, 2000)
- Dias e dias (Romance, 2002) – Vencedor do Prêmio Jabuti 2003 e Prêmio da Academia Brasileira de Letras
- Deus dará (Crônicas, 2003)
- Flor do Cerrado (Infanto-Juvenil, 2004)
- Prece a uma aldeia perdida (Poesia,2004)

Mais informações: pt.wikipedia.org/wiki/Ana_Miranda
www.anamirandaliteratura.hpgvip.com.br


17 de dezembro de 2008

Um mundo sem brigadeiro


Hoje eu me lembrei de um fato que aconteceu há uns dois anos e me chocou. Me chocou muito!

Durante um ano, minha família decidiu fazer uma atividade voluntária em um orfanato. Na verdade não era bem um orfanato, era mais um abrigo, lá estavam crianças que foram retiradas temporariamente de suas casas por causa de maus tratos, alcoolismo dos pais, coisas do tipo. Todo mês nós fazíamos festa de aniversário para as crianças. A gente decorava um salão, levava lanche, bolo, refri e presente para os aniversariantes do mês. A gente também levava brigadeiro. E foi então que eu ouvi algo que até pode parecer banal, mas mexeu comigo, com todo mundo.

Um menino virou para mim, apontou para um brigadeiro e perguntou "Tia o que é isso?". Eu respondi "É brigadeiro". "O que é brigadeiro?"

COMO ASSIM?!

Como é possível uma criança não saber o que é um brigadeiro?! É um negócio simples, que a gente sempre come em casa e em festa de criança. Toda criança sabe o que é um brigadeiro!

Mas ele não sabia.

Quão feliz pode ser uma criança que vem de um mundo sem brigadeiro?!