13 de abril de 2013

Justiça pra quem?


Sempre que assuntos polêmicos tomam conta da sociedade brasileira, a repetição das ideias preconceituosas e autoritárias de imbecis como o Datena inunda as redes sociais. Quase sempre, não consigo me conter e não dar minha opinião sobre o assunto em meio a tantas baboseiras... e o assunto da vez é a redução da maioridade penal.

Uma questão é bem clara pra mim: não é a redução da maioridade penal que vai resolver a criminalidade entre os jovens. Se botar pessoas na prisão diminuísse a violência, o Brasil seria um dos países mais seguros do mundo pois, afinal, é um dos países com maior rede carcerária (Além disso, as prisões não foram feitas pra reeducar os criminosos muito menos para evitar casos de violência no futuro, mas essa é uma discussão complexa demais pra um post...). Também fico extremamente chocada com os crimes cometidos por jovens com menos de 18 anos, mas prendê-los não vai resolver a raiz do problema.

A única maneira de diminuir a criminalidade, especialmente entre os jovens, é oferecendo melhores condições de vida para TODA a população. Milhares de famílias brasileiras sobrevivem com um salário mínimo. Enquanto isso, conheço jovens que gastam esse dinheiro, todo mês, em bares e baladas. Tem gente que paga 2 salários mínimos em uma calça ou uma bolsa.

Além disso, é essencial que todos os jovens tenham acesso a uma educação com qualidade que realmente cumpra com sua função: formar cidadãos mais críticos, capazes de construir um futuro melhor para o país. Mas isso nunca vai acontecer, sabe por quê? Porque se todo mundo tiver uma formação/educação de qualidade, ninguém vai se sujeitar a fazer serviços mal remunerados, como ser faxineira, garçom, entregador de pizza, varredor de rua, segurança... e, consequentemente, a sociedade brasileira vai ruir, pois vivemos num país que sobrevive graças a desigualdade social.

É preciso que haja pobres e pessoas sem formação para sustentar a vida luxuosa e cheia de mordomias da parcela mais rica da população. Aliás, até mesmo nós – que não somos ricos – temos nossas pequenas mordomias do dia a dia e para que cada mordomia dessa nos seja oferecida, alguém está sendo explorado (ou você já parou pra pensar em quanto ganha o vendedor da loja onde você compra suas roupas ou o cara que fica a noite toda olhando seu carro no estacionamento?).

E não é fácil ser explorado, trabalhar 40 semanais e depois receber um salário que mal dá pra pagar as contas. Lembro quando dava aula em uma escola pública à noite, eu tinha muita dó dos alunos, eles trabalhavam o dia todo e à noite iam para escolar estudar, mas de tão cansados, não tinham ânimo pra nada. Isso não é justo, aos 16 anos eles deveriam estar apenas estudando. A vida desses jovens também está sendo roubada, eles ainda nem chegaram a fase adulta, mas já tem um futuro bem definido: assim como os pais, boa parte deles vai passar a vida fazendo serviços pouco valorizados com uma remuneração irrisória. E ninguém se preocupa com isso.

É claro que isso não é motivo para sair por aí matando os outros, mas a questão é que nem todas as pessoas conseguem se sujeitar à exploração a vida inteira. Algumas conseguem, e sofrem caladas, vendo a felicidade dos outros pela TV. Mas outras não aguentam a pressão, rebelam-se e decidem resolver suas vidas do seu jeito. É engraçado pensar que aqueles que roubam e aqueles que querem a redução da maioridade penal (ou punições mais severas) fundamentam seus atos/opiniões em um mesmo argumento: fazer justiça. Mas justiça pra quem?

A desigualdade social tem dois lados: em um deles, você ganha explorando o trabalho quase escravo dos mais necessitados, no outro lado, são eles que ganham a vida roubando você. Para a violência acabar, a exploração dos mais pobres também tem que acabar. O primeiro passo para viver num país sem violência, é estar disposto a fazer a sua parte na construção de uma sociedade mais justa. Agora quero ver quem está disposto a abrir mão das mordomias do dia a dia...

1 de janeiro de 2013

Entre cabras, espinafres e asneiras sem fim.


Não li e nem vou ler essa reportagem da Veja, que deve ser uma bosta porque a revista inteira é uma bosta. Não me espanta nenhum pouco que a Veja continue fazendo matérias idiotas, preconceituosas e totalmente manipuladoras, porque, afinal, foi isso que ela sempre fez - e continuará fazendo! 

O que me incomoda mesmo é as pessoas continuarem utilizando como argumento contra a união estável de homossexuais essa história de ser proibido por lei, porque na lei o casamento só existe entre um homem e uma mulher e blá blá blá, como se as leis fossem imutáveis e tivessem sido sempre as mesmas desde o início da civilização. As leis mudam, você deve ter aprendido isso na escola, lembra? 

Caso você não se lembre, vamos a uma breve recapitulação: a lei já permitiu a escravidão, já permitiu o casamento com menores de idade (ter uma mulher de 14 anos não era pedofilia há alguns séculos), já proibiu as mulheres de frequentar a escola e de votar, já proibiu casamento entre pessoas de raças diferentes, já proibiu que negros e brancos frequentassem os mesmos lugares, já permitiu a pena de morte para adúlteros, já permitiu carga horária de trabalho superior a 50 horas... Aliás, a lei já permitiu até fazer justiça com as próprias mãos! Eu poderia passar o dia todo fazendo uma lista de fatos que eram permitidos por lei e que hoje são considerados terríveis por ferirem os direitos humanos e a igualdade entre os homens. 

Felizmente, as leis evoluem junto com as mudanças sociais, com os avanços intelectuais e com o crescimento do senso de igualdade entre as pessoas. E acho que já passou da hora das pessoas pararem com esse mimimi preconceituoso contra o casamento de homossexuais... pois não faz sentido algum lutar e brigar para que as pessoas não tenham o mesmo direito que você. 

E, se eu fosse você, nem perderia tempo tentando encontrar um argumento realmente válido contra o casamento homossexual, porque esse argumento simplesmente não existe, pois nada no mundo justifica tratar as pessoas com diferença. (E nem me venha com argumentos religiosos, porque até onde sei, na Bíblia tá escrito que Jesus falou que devemos amar ao próximo como a nós mesmos, e ele não fez nenhuma ressalva sobre homossexuais. Então, fica quietinho aí e obedece Jesus!). Se somos todos iguais perante a lei e temos os mesmos deveres (porque gay também vota, paga imposto e recebe multa de trânsito que nem você), também devemos ter os mesmos direitos! E tem gente que ainda acha sem sentido o ENEM bater na tecla da "proposta de intervenção que respeite os direitos humanos". Ao que tudo indica, tem muita gente que ainda não aprendeu o que a expressão "direitos humanos" significa.


28 de junho de 2012

Ou faça seu trabalho bem feito, ou não faça



Se tem uma coisa que eu acho insuportável é gente com má vontade. Sabe quando você vai em uma loja, lanchonete, mercado ou seja lá o que for, e o operador de caixa te atende com a maior má vontade do mundo?! Você pergunta, ele ignora ou responde de qualquer jeito. E fica lá, te olhando com aquela cara de bunda. Tudo bem, estar trabalhando no caixa de um supermercado no meio de um feriado, enquanto faz o maior sol lá fora, não deve ser nenhum pouco empolgante. Mas isso não é culpa minha. Não tenho culpa se ele está trabalhando no feriado, se ele ganha pouco ou se odeia o trabalho. E a partir do momento que ele aceitou aquele emprego, que o faça direito.

O mesmo vale para aquelas pessoas que são donas do próprio emprego/comércio e te tratam como se elas estivessem te fazendo um favor, pelo simples fato de existirem no mundo, terem aberto aquele estabelecimento e te oferecerem aquele serviço. É você quem deve agradecer a eles, não o contrário. Tem um sapateiro perto de casa que é assim. Toda vez que eu vou lá, saio com vontade de ter tacado o sapato na cara dele ou enfiado o salto bem no meio da testa.

Essa semana, passei por outra situação assim. Situação que deixa bem claro o significado das palavras má vontade e incompetência.

Fui em uma assistência técnica levar meu depilador para consertar. Entrei, esperei um século até o senhor que estava sentado perto da bancada se tocar que deveria me atender – ele simplesmente me ignorava, acho que minha cara deve ter deixado claro minha impaciência e ele resolveu me atender. Falei que queria consertar o depilador. A primeira pergunta que ele fez foi: “está na garantia?”. Respondi que não e rapidamente ele retrucou: “Mas por que você não compra um novo? Um desses não custa nem 100 reais” (um igual ao meu custa R$160). Mentalmente, mandei aquele velho catar coquinho. No mundo real, só respondi: “porque que não quero comprar outro”. Depois disso, um rapaz me atendeu e eu deixei o depilador lá, mas já sabia que eles inventariam alguma desculpa para não consertá-lo. Dito e feito. Cinco dias depois me ligaram, dizendo que como o aparelho era velho, eles não acharam a peça para fazer o conserto.

Hoje eu voltei lá, peguei o depilador e levei em outra assistência técnica. É sempre bom ouvir uma segunda opinião. Além do mais, eu realmente não quero comprar um novo, porque dinheiro ainda não tá nascendo em árvore aqui em casa. Chegando na outra assistência, um homem veio me atender e a primeira pergunta que ele fez foi: “qual o problema do seu aparelho?”. Eu expliquei e ele disse: “vocês devem ter deixado ele cair, tá vendo essa pecinha aqui?! Ela tá quebrada, é por isso que ele tá frouxo”. Sem dizer mais nada, ele foi pra dentro da loja e voltou, minutos depois, com dois cabeçotes de depilador na mão, e falou: “olha, isso não tem conserto não, tem que trocar o cabeçote inteiro. O único problema é que eu não tenho branco, só tenho nessas cores. É R$48”. Simples assim. Eu voltei pra casa com meu depilador funcionando e economizei mais de R$100 não comprando um novo.

Não sei porque a primeira assistência não quis resolver meu problema. Meu palpite é que eles ganham mais dinheiro consertando produtos na garantia, porque eles devem superfaturar os consertos. Ou então, eles não querem perder tempo consertando produtos de pouco valor. A questão é: era muito mais simples e rápido eles serem competentes. Por que eles simplesmente não falaram que não tinham aquela peça, no dia em que eu fui lá? Teriam me poupado tempo, trabalho e o dinheiro do estacionamento. 

4 de junho de 2012

Guia de viagem - Mais dicas de Buenos Aires


Dois anos depois, eu voltei para Buenos Aires. E depois de quase um ano de abandono, resolvi escrever aqui no blog. Eu adoro compartilhar dicas de viagem, porque quando você vai pra uma cidade grande como Buenos Aires, é muito difícil saber o que fazer, onde comer etc... Então vamos as dicas!


Onde ficar?
Na primeira vez que fui pra lá, fiquei em um hostel lixo, e dessa vez fiquei no alojamento da escola de Espanhol, então não tenho nenhuma experiência em um bom hostel. Mas mesmo assim, tenho três pra indicar: o Hostel Suites Florida, o Ayres Portenos hostel e o Milhouse.


Onde comer?
Cumaná: continuo indicando esse restaurante, a comida é boa e o preço é razoável. Endereço: Rodriguez Peña, 1149, Recoleta.
La Cholita: ao lado do Cumaná. O tipo de comida é bem parecido, mas achei que no La Cholita tinham mais opções de pratos com carne. Outro restaurante no mesmo esquema é o Las Cabras, que fica em Palermo, as opções de comida são bem parecidas, mas esse restaurante é maior que os outros dois.
L'ecole: um restaurante muito bom, também na Recoleta. Paguei 66 pesos por um prato de comida mais uma bebida (refrigerante ou vinho). A comida é deliciosa. Endereço: Calle Junin, 1460, Recoleta.
Onde comi boas empanadas: Comi empanadas em vários lugares, mas as melhores foram na Pizzeria Guerrin (Av Corrientes, 1368) e em uma lanchonete que fica na esquina da Av Mayo com a rua Uruguay. A melhor empanada de todas eu comi nessa lanchonete, então se estiver passeando ali perto do Obelisco, vale a pena caminhar até lá!


O que fazer, o que visitar
Dessa vez, consegui ir em vários museus e parques. Nem todos valem a visita.

Vale a pena ir no Museu da Evita (a partir das 14h)e também fazer a visita guiada na Casa Rosada (somente no fim de semana e feriados). A visita guiada no Teatro Colón também é muito legal, mas é muito cara (110 pesos), só fiz essa visita porque na hora acho que meu cérebro não estava funcionando e eu não parei pra pensar que era muito caro. Mas, pra compensar, tive a oportunidade de ver uma parte do ensaio da orquestra e ver como a acústica do teatro é simplesmente perfeita, os músicos não usam microfone e você consegue ouvir tudo perfeitamente. As apresentações de lá não são muito caras (por esse preço, dá pra ver uma apresentação da orquestra, por exemplo), por isso vale muito mais a pena ir ver uma apresentação do que fazer a visita guiada.

O Jardim Japonês é lindo, mas minúsculo, não vale a visita. O Parque Rosedal é bem bonito e no fim de semana é muito animado. Se você for pra Buenos Aires depois de outubro, vá até o Malba ver o quadro Abaporu. Eu fui, mas infelizmente o quadro está em Houston e ficará lá até outubro.

Vá na feira da Plaza Serrano em Palermo, no fim de semana. A feira é muito legal, tem muita coisa bonita e barata (paguei apenas R$180 em uma jaqueta de couro). Em volta dessa praça, tem muitos bares e eles fazem a feira na praça e também dentro dos bares, achei muito legal. Caminhe por Palermo, o bairro é uma graça.

Vá até a linha A do metro (azul claro) e fique na estação esperando o trem de madeira chegar. Essa é a linha mais antiga de Buenos Aires e tem alguns trens de madeira que são lindos!

Se quiser assistir um filme argentino, vá ao cinema Espacio INCAA, que fica em frente a Plaza do Congresso. Lá só passa filme argentino e o cinema é muito barato, só 8 pesos.

Também fui no Café Tortoni. No fim de semana, tem fila pra entrar. Só vale a pena se você for um amante da literatura e quiser ter o prazer de tomar café no mesmo lugar onde o Borges ia para tomar café.

Vá na feira da Plaza Italia (também no fim de semana) e procure a barraquinha que vende alfajor de maisena (3 pesos), foi o melhor que comi durante toda a viagem. No último dia, fui lá e comprei 15 pra trazer pro Brasil. Se você gostar de empanada, antes de voltar, vá em qualquer mercado e compre a massa pronta pra empanada. Eu comprei, fiz em casa e deu super certo.


O que fazer à noite

Bares e baladas
Na segunda, vá ao Ciudad Cultural Konex na apresentação do grupo La Bomba del Tiempo. Os gringos enlouquecem, mas pra nós que somos brasileiros não é nenhuma novidade, pois esse grupo é tipo um Timbalada, Afro Reggae ou as baterias das universidades. Mas, de qualquer forma, é muito legal e animado, por isso vale a pena ir. O show começa às 20h e custa 50 pesos. Depois do show, vá para o After Bomba no Uniclub (rua Humahuaca, é uma das travessas que começam no Shopping Abastos). Quando eu fui, teve uma banda tocando um pop rock argentino (foi bem interessante conhecer algo de lá) e depois um outro grupo tocando uma batucada à la brasileira. Não se esqueça de guardar seu ingresso do La Bomba del tiempo, aí você paga só 15 pesos.

A argentina tem um problema muito grande para quem gosta de sair à noite: as baladas começam muito tarde, muito tarde mesmo! Se você sair de casa as 23h, vai chegar na balada e ajudar o segurança a abrir a porta. As coisas por lá só começam depois das meia-noite e só ficam boas mesmo por volta das 2 da madrugada! Por isso, recomendo irem ao Pub Crawl, no site tá explicando como funciona. O pub crawl começa as 22h (tem todos os dias!! Buenos Aires tem muitos bares e baladas, muitos!! Só pra efeito de comparação, em Sao Paulo só tem pub crawl  sexta e sábado), eu participei do pub crawl 3 vezes e me diverti muito. Dos bares que eu fui com o pub crawl, os que eu mais gostei foram o Shamrock (Rodríguez Pena, 1220) e o The Spot (Ayacucho, 1261), ambos na Recoleta, e também o The Kamus, na Honduras, 5615, em Palermo Soho. Um outro bar muito legal é o Sugar (Costa Rica, 4619 – perto da Plaza Armenia), o lugar é bonito, a música é boa e lá as coisas começam relativamente cedo (se você for às 21h já tem gente e as 23h já está animado).

Balada mesmo, eu fui na Rumi, na Pacha, na Bahrein e na Lost. A Rumi é muito legal, gostei muito! Já a Pacha, não gostei. O lugar é longe, pequeno e o banheiro é minúsculo (fiquei quase 1h na fila). A Bahrein é uma balada de música eletrônica, mas eletrônica mesmo (aquele putz-putz sem fim), o lugar é legal e a entrada custa 50 pesos. Eu fui na Lost no dia do hip-hop (super minha cara), a entrada foi 20 pesos, mas não lembro o endereço, só lembro que fica em Palermo. O pessoal da escola de espanhol me indicou outras baladas como Tequila, Shampoo, Kika (fique zanzando pela Plaza Serrano que você encontra pessoas dando flyer pra entrar de graça nessa balada), Rosebar (só entra com nome na lista, veja como colocar o nome na lista no facebook deles) e Terrasas del Este (que fica na beira do rio, o pessoal vai e fica lá até amanhecer, dizem que é lindo - quarta e sábado), mas não dava pra ir em todas.

Se você quiser conhecer uma balada tipicamente argentina, onde só tem argetinos e alguns poucos turistas perdidos, vá até o Rey Castro em San Telmo, mas se prepare para ouvir reggaeton e cumbia das boas a noite toda. Se você ficar zanzando pela rua Chile, vai encontrar pessoas entregando flyer pra entrar de graça lá.

Outro problema: quase nenhuma balada ou bar aceita cartão!! Por isso, sempre ande com muito dinheiro, pra pagar as bebidas e o táxi (especialmente se for no pub crawl, porque eles não avisam em que balada vai terminar e algumas são longe – tipo a Pacha e a Rumi). Em um sábado, o pub crawl acabou na Pacha. Estávamos com pouco dinheiro e lá não aceita cartão, por isso acabamos indo embora cedo, pois estávamos com muita sede e não queríamos arriscar ficar sem dinheiro pro táxi (nem água dava pra comprar, porque água lá custa curo, paguei 18 pesos em uma garrafa na Bahrein).

Show de tango
Eu fui em dois, mas foram dois shows para ver orquestras tocando e não dançarinos (não tinha nenhum profissional dançando, não foi um show de dança). Em um domingo, fui no Café Vinilo. O lugar é pequeno, super intimista e lindo! Assistimos o show da Orquestra El Arranque, pagamos 50 pesos. Também fui no Buenos Ayres Club, no Bendita Milonga. Lá, é uma milonga, isto é, um lugar onde os portenhos vão para dançar tango, o que eu achei muito legal! O Bendita/Maldita Milonga acontece nas segundas e quartas. As 21h tem aula de tango (e foi quando eu descobri que é impossível aprender tango) e as 23h começa o show. A entrada custa 25 pesos.


Algumas dicas importantes: se você for no inverno, leve muito hidratante, pois Buenos Aires tem o poder de sugar toda a água da sua pele. Gente, nunca vi minha pele tão seca quanto lá. Para passar na boca, recomendo levarem o Bepantol Derma, você passa na boca antes de dormir e no outro dia já está melhor, porque manteiga de cacau não faz nem efeito.
Se quiser ligar para o Brasil, não use o telefone do hotel ou hostel, procure por um locutório. É tipo uma lan house onde você pode usar a internet e fazer ligações, tem um em cada esquina. Mas pesquisa o preço, pois eu paguei 4 pesos por minuto em um locutório e no dia seguinte achei um que cobrava 2 pesos.


A parte ruim da viagem: Buenos Aires está abandonada. A cidade está suja, tem lixo por tudo quanto é lado. O metrô está sujo e fedido. O táxi está caro demais, a bandeirada está 7,50 pesos (8,30 pesos à noite), quando fui pra lá em 2010 acho que estava 3 pesos. Se você queria ir pra lá fazer compras, esqueça. Está tudo muito caro. Só achei coisa barata na feira em Palermo e em umas lojas (uma delas é a Verde Manzana. Achei algumas lojas baratas na Av Santa Fe, entre o metrô Bulnes e o Pueyrredón). A água continua sendo a água mais cara do mundo, especialmente se você for turista. Tentaram me vender uma garrafinha de água por 5 pesos (R$2,50). Se você for mulher, prepara-se para ser atacada, porque os argentinos conseguem ser piores que os brasileiros nesse quesito. Eu tinha me esquecido desse detalhe, porque na maioria dos dias saí com o pessoal da escola e tinham vários homens no grupo. Só me lembrei de como era o approuche argentino quando saí com uma amiga brasileira que também foi pra lá. Eles te puxam pelo braço, enchem seu saco, te seguem. Você saí andando e eles vão atrás. A solução é fazer uns amigos gringos (que não tem esse fogo latino) e aí nenhum argentino chega perto de você (a não ser que você queira).


Para os meus amigos que estão indo para lá nas férias de julho... desejo uma ótima viagem!!! Preparem-se para andar pelo menos 5km por dia, dormir pouco, comer muito e se divertir mais ainda!!!

ps: Fiquei com preguiça de achar o link de todos os lugares, mas é fácil de achar no google, é só colocar o nome da balada/bar/restaurante seguido de Buenos Aires e pronto!


30 de outubro de 2011

Do varredor ao presidente.


Não gosto de gente que desdenha ou ironiza a doença dos outros. Achei péssimo as pessoas fazerem pouco caso da morte do Steve Jobs, como se fosse fácil definhar até a morte e ter que deixar tudo, famílias, amigos, trabalhos, sonhos. Doença não é piada. Não é fácil ficar doente. Só quem tem uma doença grave, ou um alguém próximo em uma situação assim, sabe como é difícil. Mas não acho que esse seja o caso desse movimento pedindo pro Lula ir pro SUS. Ninguém está fazendo piada, nem desejando que o Lula vá para o SUS para morrer. Também não acho que seja algo pessoal. Acho que o que as pessoas estão tentando sinalizar é que o sistema público de saúde está falido e que quem depende dele precisa de muita sorte pra sobreviver.

O Lula não é a primeira pessoa que descobriu um câncer logo no começo graças ao fato de ter acesso ao sistema privado de saúde. O mesmo aconteceu com a Dilma, com o Reinaldo Gianechinni e com muitos outros políticos, atores, etc. Mas essa, infelizmente, não é a realidade da maioria da população. População pobre que não tem dinheiro para pagar um tratamento no Sírio Libanês e precisa se humilhar para conseguir uma consulta. Pois o SUS é feito disso, humilhação atrás de humilhação. São meses para conseguir uma consulta, meses para fazer um exame e a única coisa que resta ao paciente é rezar para sobreviver o suficiente para começar a fazer o tratamento.

A verdade é que se o Lula dependesse do SUS, assim como a maioria da população, ele não começaria a quimioterapia na segunda. Talvez, nem na semana seguinte, ou no mês seguinte. Talvez ele só começaria o tratamento no ano que vem. Talvez ele morreria antes disso acontecer.

Eu falo isso por experiência própria. Alguns meses atrás, estava em acompanhamento no HC Unicamp, quando marcaram meu retorno para 6 (SEIS!) meses depois. Os médicos ainda tiveram a coragem de me dizer que se alguma coisa acontecesse, eu deveria voltar antes -  ou seja, alguma coisa poderia acontecer, mas mesmo assim eu teria que esperar 6 meses para ainda ter que fazer vários exames e, só então, começar o tratamento. Felizmente tenho dinheiro para pagar um convênio, mas meu azar foi tanto que todos os médicos em que ia, acabavam me encaminhando para algum especialista do SUS. Felizmente, encontrei uma médica verdadeiramente preocupada com seus pacientes e em um mês eu já estava fazendo o tratamento. Se não fosse por ela, se eu tivesse que esperar minha consulta no HC Unicamp, não faço ideia do que teria acontecido. Mas essa médica é uma exceção nos hospitais brasileiros. Eu tive sorte, mas muita gente não tem. Quem já pisou em um hospital público sabe como é lamentável ver pessoas extremamente doentes esperando meses por uma consulta, por um simples exame. Isso não deveria ser assim.

Não estou aqui dizendo que todos os problemas da saúde pública do país são culpa do Lula. Mas ele, quando era presidente, poderia ter feito alguma coisa para melhorar ou, ao menos, amenizar essa situação, mas não fez. Nenhum presidente ou Ministro da Saúde fez qualquer coisa para tornar mais digno e responsável um sistema do qual depende a vida da maioria da população brasileira. Também não desejo que o Lula vá para o SUS para sofrer e/ou morrer e ver como vida de pobre é difícil - até porque isso não faria diferença nenhuma.

A única coisa que eu desejo é que ninguém mais tenha que pagar para ser bem atendido e receber tratamento. Que ninguém mais seja mandando para casa para esperar 6 meses. Que ninguém mais tenha que dormir em maca em corredor de hospital. Que ninguém mais morra por descaso ou falta de tratamento. A única coisa que eu desejo é que algum dia a saúde pública do nosso país consiga atender com qualidade, rapidez e dignidade toda a população brasileira, do varredor de rua ao presidente.

4 de setembro de 2011

Zero à esquerda.


Esse post é sobre algo que sempre pensei: boa parte das pessoas tem coração de pedra. E toda essa bondade, filantropia e vontade de ajudar os outros é, quase sempre, fingimento. Falsidade. É só uma maneira de limpar a consciência e dizer, antes de dormir: bom, eu fiz a minha parte.

Há pouco tempo entrei em uma ONG que faz atividades recreativas e educativas em centros e ONGs que cuidam de crianças carentes. Na primeira atividade, meu companheiro era um menino de 11 anos. Em uma das atividades, eles deveriam escrever no papel um sonho que eles tinham para a comunidade. E esse menino de 11 anos não conseguiu escrever “campo de futebol”. E ele não era o único que (quase) não sabia escrever. Mas acho que ninguém se importou muito com isso. Ao final da manhã, todo mundo voltou pra casa feliz, achando que já tinha feito “a sua parte”. Eu voltei pra casa pensando que eu era a única idiota que tinha saído de lá pior do que chegou, porque, pra usar a palavra correta, não fizemos merda nenhuma. Porque nenhuma brincadeira vai fazer diferença na vida de um menino que não sabe escrever “campo de futebol”, que mal sabe escrever o próprio nome.

Essa semana meu avô passou 5 dias internados por puro descaso da médica que o acompanha há mais de 10 anos. Ele foi internado quarta de manhã, faria a cirurgia (para trocar a bateria do marcapasso) de manhã mesmo e à tarde já estaria em casa. Mas a médica preencheu a ficha incorretamente e agendou a cirurgia sem nem confirmar se o hospital tinha comprado a bateria nova. Eles não tinham comprado a bateria nova. Desculpa vai, desculpa vem e meu vô só foi operado ontem (sábado!) às 16h. A médica disse que no dia seguinte ela passaria no hospital até às 11h pra dar alta pro meu avô. Depois de milhões de telefonemas (e muitas caixas postais), ela só chegou ao hospital às 17h, quando nós já estávamos assinando o Termo de Responsabilidade para retirar meu avô de lá, de qualquer jeito. Ela disse que um tio dela tinha morrido. A gente fingiu que acreditou. Achei péssimo. Meu vô tem quase 90 anos, tem Parkinson, está super debilitado e ficou internado por 5 dias sem a menor necessidade. A gente sempre tem a doce ilusão de que uma pessoa decide ser médico para fazer o bem para os outros. Mas alguém que tem coragem de tratar com tanto descaso um velhinho tão doente, só está preocupado mesmo é com o salário que vai embolsar no fim do mês.

Eu não teria coragem de fazer isso, porque eu acabo me envolvendo demais com as pessoas. Acho que isso é mal de família. Uma vez meu tio chorou só de ouvir a história sobre uma família que nós ajudamos em um Natal. Levamos uma sexta básica e uma bola. Um dos meninos, que era doente e tinha problemas mentais, queria muito uma bola de Natal.

Mas a grande maioria das pessoas não é assim. Elas vão lá, fazem o que tem que fazer e pronto. Cada um faz a sua parte. E depois... é cada um com seus problemas. Nós só “fazemos a nossa parte” quando isso não nos ocupa muito tempo ou dinheiro, quando não saímos perdendo, quando não somos prejudicados, quando não precisamos nos esforçar muito ou nos envolver demais, quando não dá muito (ou nenhum) trabalho. A parte que nos cabe é sempre fácil, rápida, barata e indolor. A parte que nos cabe é sempre merda nenhuma, que não muda coisa alguma. A parte que nos cabe vale menos que um zero à esquerda.

23 de maio de 2011

Nóis num semô tatu


seu arnestu escutó na tv qui tem um tantu de genti recramanu di um tar di livru du méqui. arnestu num sabi u qui é essi tar de méqui, num sabe nem u qui é livru pra usá da sinceridadi. arnestu num foi pra iscola. num sabe lê nem iscrevê. é anarfabetu. num sabi nem fazê u “ó” sentadu na areia comu si diz pur aí. só ficô sabenu du aconticidu purque a tv fala i num é pricisu di lê.

eli ouviu a tv falá qui tem um tantu di gente falanu mar dessi tar di livro di dático qui insina os alunu das iscola a falá erradu. nu livro elis insina qui falá “nóis pega o peixe” num tá certo. mas num tá? arnestu num entendeu, purque quandu seus amigu vorta da pescaria, elis sempri diz “nóis pegô um tanto de peixe”. i num é? us tar acadêmicu di uma acadimia das letra falarum qui u certo mesmo é falá “nós pegamos o peixe”. arnesto achô essi jeitu di falá um tantu istranho i pensô qui essi povu da acadimia devi di sê mitido pur di mais.

u ministru da educaçaum dissi qui si nóis cuntinuá falanu erradu, nóis num passa in cuncurso, num entra na universidadi, nem arruma empregu. i quem dissi que nóis qué fazê cuncurso? eu já tô impregadu desdi mulequi. eu tamém cunheçu um bucadu de genti qui só fala essi tar di nóis qui tá erradu i tá todu mundu impregadu i vivu, graças a deus.

u livru di dático chama “Por uma vida melhor” i arnestu achô um tantu istranhu qui um livru cum nomi bunitu dessi fossi ensiná coisa errada pros otro. istranhô tamém qui a iscola fossi insiná coisa qui num é certa, num é pra iscola qui o povu vai pra aprendê a iscrevê as coisa que fala i pra aprendê a lê u que us otro iscreve?

nu finar, arnestu pensô qui é bom por di mais num sabê iscrevê i só falá tudu da boca pra fora. quando si iscrevi, todu mundu lê i todu u povu fica sabenu quem dissi u quê. quando si fala, u ventu leva as palavra i nem deus incontra o qui foi dito.

arnestu desligô a tv i pensô qui as vezes era baum dá uma ventania pelus lado da acadimia i la nas bera du ministeriu, pra levá imbora essas cunversa fiada di genti qui fala u qui num devi.


u português é nossu i noís fala du jeitu qui quisé.


E que levante a mão quem um dia já disse “semana que vem nós iremos em uma festa, convidar-lo-ei”. E que atire a primeira pedra quem nunca pediu “Dois pão” na padaria.

Segue uma ótima entrevista sobre o assunto, com o Prof. Ataliba Castilho: http://www.youtube.com/watch?v=DROHTF4iaiQ&feature=player_embedded


7 de abril de 2011

Monstros S.A.


Quando algum horror acontece, mídia e sociedade se unem para crucificar e rotular de monstro o assassino da história. Como se a vida fosse simples assim. Em um dia ensolarado de primavera, uma pessoa “normal e feliz” acorda e pensa: hoje eu vou virar um assassino, vou comprar uma arma e matar dezenas de crianças na escola da esquina. Afinal, tem gente que nasce com gene ruim mesmo. Enquanto alguns sonham em ser jogador de futebol, médico ou policial, tem menino que já nasce sonhando em ser atirador de escola.

Não é minha intenção defender um jovem perturbado que assassinou brutalmente dezenas de crianças, no entanto não adianta jogar a culpa de atitudes assim na má índole ou no gene ruim dos outros. Pessoas que tomam atitudes como essa estão no ápice de uma explosão causada, sobretudo, pela sociedade fútil, egoísta e superficial na qual vivemos e a qual ajudamos a construir, dia a dia. Em uma sociedade onde as pessoas se importam mais com a etiqueta do bolso de trás da calça do que com a vida dos outros, não é difícil imaginar porque a depressão será a epidemia do século.

A questão é que ninguém se importa com os outros. Você sabe que sua vizinha não tá bem, mas não faz nada pra ajudar. “Ah, a vida é dela. Cada um com seus problemas”. Aí ela é encontrada morta pelo marido, com um saco de plástico amarrado no pescoço. Você tem um colega de trabalho que é meio calado e estranho. Você até pensou em se aproximar, fazer amizade, às vezes ele precisa de companhia. “Ah, mas também ele fica sozinho porque quer né?”. E ele acaba se jogando do décimo andar. Você vê aquele colega de classe sendo zuado, maltratado pelos outros alunos, ele apanha e é humilhado todos os dias. Ele chora. E você não faz nada. “Problema dele, ninguém manda ser viadinho e não se defender”. Quem não conhece uma história de bullying na escola (ou na universidade!)? Ou até histórias piores. Conheço gente que era assediado pelo diretor da escola ou que foi abusado sexualmente por colegas em período de aula. A gente sabe de tudo, mas nunca faz nada. A vida não é nossa, não é da nossa conta. Mas um dia, aquele garoto-pancada cresce, entra na escola onde seu filho estuda e sai atirando. Mata seu filho. Aí, bom... agora o problema também é seu.

As pessoas acham que estão livres de serem monstros - é preciso ter coração ruim. Não, não é. Já vi pessoas muito amáveis e próximas terem ataques (por nervosismo, stress, etc) e se transformarem, ficarem agressivas, transtornadas. Mas essas pessoas procuraram ajuda, "se trataram", receberam apoio da família e dos amigos. Só que nem todo mundo tem a sorte de ter alguém pra ajudar e no mundo onde cada-um-cuida-do-seu, ninguém tem coragem de pedir ajuda. E vai segurando. Sofrendo sozinho.

A gente só se preocupa com o problema dos outros quando somos atingidos, direta ou indiretamente, por eles. E se isso nunca acontecer... ah, deixa pra lá. Enquanto continuarmos vivendo nossas vidas dando valor para coisas fúteis e ignorando o bem-estar (ou sofrimento) das pessoas, esse tipo de tragédia vai continuar se repetindo...


ps1: Os dois casos citados (da mulher que se suicidou com uma sacola de plástico e do jovem que se jogou do apto onde morava) aconteceram de verdade, com pessoas que eu conhecia.

ps2: Acho engraçado que até agora ninguém comentou nada (NADA) sobre o “cinegrafista-amador” que entrou na escola logo depois do massacre e que ao invés de ajudar a socorrer as vítimas, ligou o celular pra filmar tudo e vender para emissoras de TV. Nada a declarar.