20 de março de 2009

Conheça - Adriana Lisboa (parte II)


"Destino impiedoso -
Virar broto de bambu
Era seu fim."
Basho


A Adriana Lisboa é uma escritora tão adorável, que merece um segundo post. Sua escrita é sempre sensível, poética e carregada de significados. Sempre que eu leio um livro, gosto de assinalar os trechos que mais gosto, aquelas frases que você quer poder encontrar depois, pra dizer a alguém. Quando leio os livros da Adriana Lisboa, tenho vontade de assinalar o livro todo.


Acabei de ler um outro livro seu, Rakushisha. Esse livro merece atenção especial, ele é o resultado da pesquisa de doutorado da escritora. Ao invés de escrever uma tese, que seria colocada na estante da biblioteca da faculdade e, quem sabe, um dia seria lida por umas poucas pessoas, ela escreveu uma obra de ficção. É no limite entre ficção e realidade, que Adriana Lisboa nos traz o resultado da sua pesquisa sobre a cultura japonesa, o escritor Basho do século XVII e seus haikais.

Merece ser lido por quem gosta de conhecer outras culturas, gosta de haikai e, especialmente, de uma escrita poética, tocante e significativa.



"Gosto dessa familiaridade da estranheza, de que de repente me dou conta. Gosto de me sentir assim alheada, alguém que não pertence, que não entende, que não fala. De ocupar um lugar que parece não existir. Como se eu não fosse de carne e osso, mas só uma impressão, mas só um sonho, como seu eu fosse feita de flores e papéis e um tsuru de origami e o eco do salto de uma rã dentro de um velho poço ou o eco dos saltos de uma mulher na calçada e as evocações de Sei Shonagon e de Basho, séculos depois.

Qual é o lugar que ocupo no mundo? Tem nome, esse lugar? Tem dimensões? Altura, largura, profundidade? Será um som, apenas, ou um gesto, ou um cheiro, ou uma possibilidade nunca explorada? O contrário do som. O contrário de um gesto - imobilidade, potencialidade. Desistência?"

A. Lisboa. Rakushisha, p.89


18 de março de 2009

Doação de órgãos


Hoje o Jornal da EPTV (afiliada TV Globo da região de Campinas) completou 30 anos e fez uma edição especial sobre Transplante e Doação de Órgãos.


Eu sou completamente à favor da doação de órgãos.

Acho um egoísmo inaceitável a família se negar a doar os órgãos de um parente falecido. Eu concordo que a perda de alguém é algo triste e decidir pela doação de órgãos, num momento assim, deve ser mesmo complicado, especialmente porque são as vítimas de acidentes e derrame os maiores doadores de órgãos em potencial, ou seja, pessoas que morreram de forma inesperada e deixaram todos chocados. É difícil tomar uma decisão tão séria em um momento de grande abalo psicológico.

Mas também é díficil saber que seu amigo ou familiar poderia te sobrevivido se tivesse encontrado um órgão no dia anterior. É difícil saber que a vida de alguém que você ama e estima está na mão dos outros, na espera de que outras pessoas - que você sequer conhece - tenham um ato de consciência social.

É nisso que acredito. Doar órgãos é mais que um ato de solidariedade, é um ato de consciência. É preciso ter consciência que ao dizer NÃO à doação órgãos, você se torna cúmplice da morte de outra pessoa. Isso é duro, mas é verdade. Se um órgão que você doa pode salvar a vida de uma pessoa (ou várias), deixar de doá-lo é uma atitude tão cruel quanto dar um tiro em alguém. Deixar de salvar a vida de outras pessoas para manter os órgãos dentro de um corpo que logo será consumido é egoísmo puro, é falta de consciência e de amor ao próximo, é negar o fato de que todos nós temos um pouco de responsabilidade sobre a vida e a morte dos outros.

A reportagem da EPTV terminou com uma mensagem com a qual concordo: quem doa órgãos troca a dor da perda de um ente querido pela felicidade de dar a outras pessoas a oportunidade de continuar vivendo.


6 de março de 2009

Amanhã minha irmã vai estar no Altas Horas


Genteeee... Amanhã minha irmã vai estar no Altas Horas!!!! Ela toca saxofone na banda sinfônica SOPRA MULHERES.

Eu fui lá assistir a gravação ontem. Foi bem legal!! O pessoal da produção é muito legal, todo mundo é muito gente boa, fomos muito bem tratadas e nos divertimos muito, especialmente durante as conversas com os maquiadores nos bastidores, atrás do cenário... só risada! Cheguei em casa morta, às 21h30.

As mulheres da banda Altas Horas são lindas e super simpáticas, conversaram com todo mundo e tiraram várias fotos! O Serginho não foi muito simpático, nem conversou com as meninas da banda! Eu tirei uma foto com ele, mas a foto SUMIU da máquina! Não sei o que aconteceu, mas várias fotos se auto-apagaram =/

O programa vai ao ar amanhã de madrugada na Globo (acho que começa às 1h30) e domingo às 21h no Multishow!

bjo

2 de março de 2009

Eu prefiro as palavras

Todo mundo já deve ter ouvido a máxima “Uma imagem vale mais que mil palavras”. Ultimamente, tenho discordado.

Eu sou uma pessoa meio desatualizada quando o assunto é cinema, porque quase sempre eu acabo esperando os filmes serem lançados em DVD, para poder assisti-los em casa. Quando o filme é uma adaptação de um livro, eu sempre leio o livro antes e por isso acabo vendo o filme só muito tempo depois de ter passado no cinema.

Ontem eu assisti O Caçador de Pipas. Já faz um bom tempo que li o livro, mas ainda não tinha tido coragem de ver o filme. O livro é pesado demais, é sofrido. Acreditando que uma imagem vale mais que mil palavras, pensei que assistir o filme seria ainda mais doloroso. Mas não foi.

O filme, nem de longe, consegue retratar e transmitir todo o sofrimento e dor de Amir, o personagem principal. No filme, ele é apenas um menino que abandonou e maltratou seu melhor amigo. No livro, ele é muito mais que isso. É uma criança que sofre pela sua falta de coragem, pela sua falta de amor e compaixão. Ele sofre por não ter o amor do pai e por não conseguir amar o amigo tanto quanto ele o amava. Ele era fraco, desumano e sofria muito por isso, porque simplesmente não conseguia ser melhor. Faltava coragem.

No livro, ele vai fundo e fala sobre seus sentimentos, sobre todo seu sofrimento. Não é fácil transmitir tudo isso em um filme, mesmo que se tenha roteirista, diretor e atores muito bons. É difícil mostrar com imagens o que se passa dentro das pessoas, pois a palavras transmitem melhor o que há dentro de nós.

No começo do ano, li o Ensaio sobre a cegueira. Esse livro é ainda mais sofrido e angustiante, por isso resistia em ver o filme. Depois de ontem, acho que vou ficar só com o livro mesmo.

19 de fevereiro de 2009

Um pouco de Saramago


Para aqueles que não sabem, José Saramago tem um blog (http://caderno.josesaramago.org).


O texto abaixo é um dos posts que ele publicou esse mês. Faço minhas as palavras dele e para colocá-los no clima do post...


Durante um daqueles almoços que reúnem a família,
um homem abre a boca "Porque eu já avisei, quando a gente casar,
ela saí do emprego. Porque mulher minha não trabalha".

O fato não ocorreu na década de 30 do último século,
mas sim no ano passado. E o casamento dos dois já foi marcado.


Maus tratos

By José Saramago

Sou em geral conhecido como pessimista. Ao contrário do que alguma vez possa ter parecido, dada a insistência com que afirmo o meu radical cepticismo sobre a possibilidade de qualquer melhoria efectiva e substancial da espécie dentro do que em tempos não muito distantes se chamou progresso moral, preferiria ser optimista, mesmo que fosse apenas por ainda conservar a esperança de que o sol, por ter nascido todos os dias até hoje, nasça também amanhã. Nascerá, mas lá chegará também o dia em que ele se acabe. O motivo destas reflexões de abertura é o mau trato conjugal ou paraconjugal, a insana perseguição da mulher pelo homem, seja ele marido, noivo ou amante. A mulher, historicamente submetida ao poder masculino, foi reduzida a algo sem mais préstimo que o de ser criada do homem e simples restauradora da sua força de trabalho, e, mesmo agora, quando a vemos por toda a parte, liberta de algumas ataduras, exercer actividades que a vaidade masculina presumia de exclusivas do varão, parece que não queremos dar-nos conta de que a esmagadora maioria das mulheres continua a viver num sistema de relações pouco menos que medievais. São espancadas, brutalizadas sexualmente, escravizadas por tradições, costumes e obrigações que elas não escolheram e que continuam a mantê-las submetidas à tirania masculina. E, quando chega a hora, matam-nas.

A escola finge ignorar esta realidade, o que não pode surpreender se pensarmos que a capacidade formativa do ensino se encontra reduzida ao zero absoluto. A família, lugar por excelência de todas as contradições, ninho perfeito de egoísmos, empresa em falência permanente, está a viver a mais grave crise de toda a sua história. Os Estados partem do exacto princípio de que todos teremos de morrer e de que as mulheres não poderiam ser excepção. Para algumas imaginações delirantes, morrer às mãos do esposo, do noivo ou do amante, a tiro ou à facada, talvez seja mesmo a maior prova de amor mútuo, ele matando, ela morrendo. Às negruras da mente humana tudo é possível.

Que fazer? Outros o saberão embora não o tenham dito. Uma vez que a delicada sociedade em que vivemos se escandalizaria com medidas de exclusão social permanente para este tipo de crimes, ao menos que se agravem até ao máximo as penas de prisão, excluindo decisivamente as reduções de pena por bom comportamento. Por bom comportamento, por favor, não me façam rir.

Fonte: http://caderno.josesaramago.org/2009/02/16/maus-tratos/

10 de fevereiro de 2009

Conheça - Patrícia Melo

Patrícia Melo é escritora, roteirista e dramaturga. Na literatura, escreve obras policiais e é conhecida por se dedicar a análise da mente de criminosos. Ela tem uma escrita dilacerante. Seus livros chocam, te machucam por dentro, porque você sabe que embora seja tudo ficção, há algumas esquinas uma história parecida, mas real, pode estar acontecendo.

Li dois de seus livros, Acqua Toffana e O Matador. No primeiro, Patrícia conta a história de dois estupradores e assassinos: uma história é contada sob o ponto de vista da vítima e a outra, do estuprador. Em O Matador, Patrícia conta a história Máiquel e nos mostra como um acontecimento banal e não-planejado pode transformar uma pessoa comum num assassino. O Matador foi transformado em filme, sob o título O Homem do Ano.

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Patrícia Melo nasceu em Assis – SP, em 1963 e é casada com o maestro John Neschling. Além de diversos livros, também escreveu dois trabalhos para a televisão (a minissérie Colonia Cecilia em 1989 e A Banqueira do Povo, em 1993), dois roteiros para o cinema (O Xangô de Baker Street e Bufo & Spallanzani, ambos em 2001) e algumas peças de teatro. Em 1999, a Time Magazine a incluiu entre os 50 “Latin American Leaders for the New Milennium.

PUBLICAÇÕES
Acqua Toffana (1994)
O Matador (1995)
Elogio da Mentira (1998)
Inferno (2000) – vencedor do Prêmio Jabuti
Valsa Negra (2003)
Mundo Perdido (2006)
Jonas, o Copromanta (2008)

"Se você quiser me matar, Máiquel, vai ter que ser pelas costas, ele disse.
Suel ficou de costas para mim e saiu gingando (...).
Dei o primeiro tiro (...) Dei outro tiro sem mirar e acertei a cabeça de Suel. Foi assim, as coisas aconteceram desse jeito. Ele foi a primeira pessoa que matei. Até isso acontecer, eu era apenas um garoto que vendia carros usados e torcia para o São Paulo Futebol Clube."
(trecho de O Matador)


9 de fevereiro de 2009

A pobreza é revoltante


Eu tinha decidido que a volta do blog (depois dessa pausa de quase um mês) seria com a apresentação de mais um escritor brasileiro. Mas aí, acabei mudando de idéia. Na verdade, não mudei muito. Eu ia escrever sobre a Patricia Melo e os livros dela falam sobre o tema desse post.


Esses dias eu percebi uma coisa que espanta a mim mesma. Eu percebi que, no fundo, eu tenho dó de criminosos. Digamos que eu me compadeça do destino desgraçado do qual, na maioria das vezes, eles não conseguem fugir.

Não, não tenho dó de serial killer, estuprador, torturador, gente que bota fogo no vizinho, joga a filha pela janela, mata a namorada, enfim, esses assassinos que matam por prazer (ou por loucura, sabe-se lá), psicopatas que se multiplicam a cada dia no Brasil. Também não tenho dó de filhinho de papai que opta pela criminalidade para fazer bonito para os amigos. Estou falando de gente que nasce na miséria e vira bandido.

Uma reportagem na TV me deixou chocada: um menino de 11 anos era preso por roubo, pela segunda vez. Era usuário de drogas pesadas e morava num barraco de 2 cômodos em uma favela. Ele ainda é uma criança, mas já é um criminoso. Já é odiado por muita gente, que acha que seu lugar é na cadeia. Eu não acho. Eu tenho dó. A sua vida ainda está no começo, mas seu futuro já foi determinado.

Eu acho que o que acontece é que eu me identifico mais com ele do que com os ricos que ficam por aí choramingando quando seu rolex que custa sei lá quanto é roubado. A criminalidade do país é, claro, uma coisa terrível, mas a desigualdade social é, para mim, mais pertubadora.

Uma outra reportagem, que vi ontem, chama atenção para o assunto. Na cidade de São Paulo, o luxo e a miséria vivem lado a lado: de um lado a favela de Paraisópolis, uma das maiores da cidade, do outro lado o bairro Morumbi, um dos bairros mais ricos de São Paulo. De um lado da rua, barracos que não valem R$10 mil reais. Do outro lado, casas de R$5 milhões e apartamentos com uma piscina por andar.

Quando um dos moradores do Morumbi é assaltado, com certeza, se diz injustiçado. Injustiça maior é a vida que levam as 80 mil pessoas que moram ao lado. Não estou dizendo que ir lá roubar aquilo que a pessoa comprou com o dinheiro do seu trabalho é correto. Mas ver a pobreza na rua debaixo e fechar os olhos também é cometer um ato de injustiça.

É fácil julgar a pessoas quando se tem tudo na vida, escola boa, carro do ano, roupa nova toda semana, viagem pro exterior, festa, lazer. Boa parte das pessoas não sabe o que é ser pobre, o que é passar fome, frio, não ter roupa para vestir, não poder ir para escola porque tem que ajudar os pais a sustentar os irmãos menores. Concordo que a pobreza não deve ser desculpa para uma vida cheia de crimes, nem todo pobre precisa ou tem que virar bandido.

Mas o que será que nós faríamos se estivéssemos do lado de lá da história? Ser pobre é ter uma vida repleta de fracassos e humilhações. Cheia de sonhos que nunca serão realizados. É ver as oportunidades passarem bem longe da sua porta. Se imagine morando numa barraco de madeira e vendo, do outro lado da rua, uma mansão com mais quartos que moradores. Deve doer. Deve dar ódio. A pobreza é revoltante. Ela é o alimento da criminalidade.